Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, 32 (115): 165-166, 2007 165
Resenha
Vida e morte no trabalho
DWYER, Tom. Tradução de Wanda Caldeira Brant e Jô Amado. São Paulo: Multiação
Editorial/Unicamp, 2006. 408p.
A Editora da Unicamp e a Multiação
Editorial prestam importante serviço ao
país com a publicação de Vida e morte no
trabalho, de Tom Dwyer, sociólogo e professor
da Unicamp. A primeira versão desse
livro foi lançada, em inglês, em 1991 e
recebeu comentários e resenhas das principais
publicações mundiais dedicadas
aos temas da Segurança, da Ergonomia e
da Sociologia do Trabalho.
A contribuição de Dwyer é resumida
pela expressão “acidentes industriais são
produzidos por relações sociais”. O autor
constrói explicação sociológica para as origens
dos acidentes, indo além do olhar tradicional
baseado em teorias psicológicas
de falhas dos operadores.
A explicação do Professor Tom Dwyer é
particularmente importante em nosso país,
onde o arcabouço jurídico relativo à segurança
praticamente desconsidera aspectos
da dimensão sociológica dos acidentes
cuja importância, na gênese desses eventos,
vem sendo apontada como crescente.
No prefácio à edição brasileira, Maria
Elizabeth Antunes Lima conclui:
Isso significa que os profissionais responsáveis
pela segurança nos contextos de
trabalho devem ser orientados por critérios
sociais e seu espaço de atuação deve
ter como referência as relações sociais
produtoras de acidentes. (p. 7)
A teoria proposta por Dwyer discute
as contribuições de relações sociais de recompensa,
de comando e de organização
que levariam trabalhadores a aceitar altos
níveis de risco de acidentes no trabalho.
Em relação à recompensa, Dwyer discute
como os incentivos financeiros, o aumento
das jornadas de trabalho e as recompensas
simbólicas levariam trabalhadores
a aceitar riscos maiores, podendo sofrer
mais acidentes. Os incentivos financeiros
agiriam via intensificação do trabalho; o
aumento da duração das jornadas atuaria
levando trabalhadores a irem além de suas
capacidades físicas; e as recompensas simbólicas,
incentivando a intensificação e o
aumento de jornadas.
No que se refere ao comando, trata das
relações de autoritarismo, de desintegração
de grupos de trabalho e até da servidão
voluntária, levando ao aumento da
ocorrência da possibilidade de acidentes.
O autoritarismo pode ir da violência explícita
às ameaças de punição para diminuir
a autonomia dos trabalhadores. A desintegração
de grupos de trabalho dificulta a
cooperação e a comunicação (trocas) entre
integrantes, aumentando o risco de acidentes.
A servidão voluntária pode ser conseguida
via contratação de trabalhadores
extremamente necessitados que aceitem a
presença de riscos como parte inevitável
do trabalho.
No âmbito organização, inclui as práticas
de contratação de pessoal menos qualificado
a custo mais baixo, a separação
entre concepção e execução do trabalho
etc. Este nível inclui relações sociais de
subqualificação, rotina e desorganização
que levariam à monotonia, à desatenção e
à desorganização, aumentando o risco de
acidentes.
O ponto crucial da proposta de Dwyer é
resumido por Lima:
é a força do coletivo de trabalhadores, entendida
como o grau em que este coletivo
consegue exercer seu ‘poder de comando’,
que irá influenciar o tratamento a ser dado
aos perigos presentes no trabalho e, conseqüentemente,
o índice de acidentes. (p. 8)
O conteúdo do livro é riquíssimo, fruto
de uma cultura muito vasta que vai da
história da invenção e uso da lâmpada de
Davy, em 1816, à evolução do sentimento
da morte no mundo moderno.
A possibilidade da contribuição das
Ciências Sociais para a prevenção de acidentes
pode encontrar resistências e incompreensões
entre profissionais cuja
formação é centrada na abordagem de aspectos
técnicos de problemas. A teoria de
Dwyer não esquece esses incrédulos, que
só acreditam naquilo que é observável, que
pode ser medido, testado e provado com
números. O autor testou sua teoria em sete
fábricas da Nova Zelândia e apresenta seus
resultados no livro. Posteriormente, orientou
pesquisas no Brasil usando a sua teoria.
Em outras palavras, sua contribuição não é
“mero” exercício teórico. Pelo contrário, reflete
o olhar de quem “freqüenta a vida”, o
chão de fábrica onde se dão os acidentes.
A proposta de Dwyer suscita reflexões e
foi alvo de questionamentos que não reduzem
a importância de sua contribuição para
o campo da Saúde do Trabalhador. Entre
os novos estudos que podem ser indicados,
um refere-se à exploração da adequação da
teoria como explicação do comportamento
da acidentalidade no Brasil nos últimos
anos. Afinal, à primeira vista, as mudanças
ocorridas no mundo do trabalho levaram a
reconhecido enfraquecimento da força dos
coletivos de trabalhadores, da sua capacidade
de exercer o poder de comando capaz
de fazer face aos perigos presentes no cotidiano
de vida e trabalho. Apesar disso, de
acordo com os números oficiais, a acidentalidade
caiu significativamente e estabilizou-
se nos últimos anos. De acordo com a
teoria do autor, o comportamento esperado
não seria o aumento dessas taxas?
Para finalizar, nada melhor que as palavras
usadas por Lima no encerramento de
seu prefácio ao livro:
em um país onde os ‘atos inseguros’ ainda
continuam sendo apontados como os fatores
mais importantes na origem dos acidentes,
penso que devemos receber com
entusiasmo um livro que aborda o problema
respeitando sua complexidade e que,
acima de tudo, não pretende dar a palavra
final sobre o assunto, mas, ao contrário,
se apresenta como um estímulo à reflexão
e como um convite a novas pesquisas que
dêem continuidade a um projeto inegavelmente
promissor.
(p. 10)
Ildeberto Muniz de Almeida
Professor do Departamento de Saúde Pública da
Faculdade de Medicina de Botucatu-SP
ialmeida@fmb.unesp.br
